Tuesday, October 20, 2009

Micro-entrevista a Luis Reis do Projecto Mobi-e

Após o TEDxEdges tive a oportunidade de realizar um micro-entrevista, por email ao Eng. Luis Reis, que participou no TEDxEdges.

As perguntas são relativas ao projecto português de mobilidade electrica Mobi-e

TEDxEdges: A questão acabou por surgir no proprio TEDxEdges mas, qual é o termo de comparação do Mobi.e com o projecto israelo-americano Better Place? São concorrentes, i.e. onde está um, não pode estar o outro, ou podem existir no mesmo espaço de forma concorrencial?

Luis Reis: O modelo de mobilidade eléctrica MOBI.E, que será implementado em Portugal, é uma abordagem inovadora e ambiciosa, que permitirá criar uma rede pública de amplitude nacional, absolutamente coerente, que permita a um qualquer utilizador, com um qualquer veículo e um qualquer modelo de bateria, carregar o seu veículo em qualquer ponto de carregamento de qualquer operador de pontos de carregamento e, através deste, aceder ao seu comercializador de mobilidade eléctrica escolhido, isto em qualquer localização do país. É um “modelo aberto” e inclusivo. Naturalmente que o modelo de negócio da Better Place, embora originalmente apresentado como uma associação entre veículo, baterias e serviço de carregamento, se poderá vir a ajustar a uma implementação em Portugal. Estamos muito atentos a que empresas portuguesas possam vir a tirar partido das oportunidades abertas por este conceito no espaço internacional.

TEDxEdges: Sei que existem alguns planos de internacionalização deste projecto, quer-nos falar um pouco acerca disso. Vão ser concorrentes do Better Place nos mercados internacionais?

Estamos a trabalhar para que o conceito que se está a implementar em Portugal possa ser, pelo seu carácter integrador, um modelo de referência para uma ampla introdução da mobilidade eléctrica noutros países ou mesmo na Europa como um todo. O que poderemos exportar é um “modelo aberto” e inclusivo, que estimula simultaneamente a coexistência e concorrência de várias soluções, com forte carácter inovador, sem barreira à entrada significativas.

TEDxEdges: Quais são as projecções/ objectivos do projecto Mobi.e em relação à percentagem do parque automóvel de ligeiros electricos, para 2010, 2015 e 2020, em Portugal.

Estamos no arranque da fase piloto da mobilidade eléctrica, durante a qual se pretende criar uma rede de acesso público de 1300 pontos de carregamento em 25 municípios e principais eixos viários. Num fase inicial, o número de veículos será ainda reduzido, mas no cenário de base consideramos um parque de 160 000 veículos em 2020.

TEDxEdges: No futuro mais longo, digamos 2040, caminhamos para que todos os automóveis sejam electricos ou haverá um mix de combustiveis, desde fosseis, a electricos, hibidos, e celulas de combustivel?

Não há consenso junto dos grandes construtores e experts em relação a previsões. No entanto, sendo seguro afirmar que diferentes tipos de motorização coexistirão durante as próximas décadas, o veículo eléctrico reúne um conjunto de vantagens que contribuirão para uma forte afirmação desta tecnologia: o facto de ser emissões zero a nível local e de se poder garantir uma associação com as energias renováveis, de se carregar numa infraestrutura maioritariamente existente – na rua ou em casa – com base em electricidade, que é uma fonte energética com a qual os cidadãos estão familiarizados, a robustez da tecnologia e o grande conforto de utilização destes veículos.

TEDxEdges: Existe algum plano para o Mobi.e trabalhar com as grandes frotas de empresas de transporte de massas (publicas ou privadas), como sejam a Carris, a Barraqueiro, a Rede de Expressos, etc?

Haverá uma abordagem cuidada a utilizadores provados e gestores / operadores de frotas. Desde a fase piloto, as entidades públicas terão um envolvimento forte, sendo disso exemplo o empenho dos municípios em prever uma componente importante da renovação substituindo veículos de motorização convencional por eléctricos.

TEDxEdges: O abastecimento electrico também vai ter um imposto especial, equivalente ao actual Imposto Sobre Produtos Petroliferos? Acha que isso faz sentido?

É conhecida a importância que as receitas fiscais associadas ao automóvel no total da receita fiscal. Estas incluem, fundamentalmente, receitas sobre a aquisição – ISV – e sobre a operação – nomeadamente ISP e IUC. Naturalmente, num cenário de massificação dos VEs, com transferência da fonte de energia directa dos combustíveis para a electricidade, a ausência de uma taxa sobre a energia para a mobilidade terá um impacto significativo. Não há uma linha definida em relação a esta matéria, mas é necessário considerar que, independentemente da tipologia de motorização, o uso do veículo automóvel deverá ser racionalizado, em articulação com os transportes públicos. Por essa razão, esta questão deverá sempre ser considerada em conjunto com outras medidas de regulação da mobilidade.